406 – Voluntariado: entre o mito do herói e a realidade do compromisso
Fala-se muito em voluntariado como se fosse um gesto épico, quase cinematográfico. A pessoa “do bem”, iluminada, que aparece para transformar vidas com um sorriso e uma camiseta personalizada. Mas, sejamos honestos: essa imagem açucarada faz mais mal do que bem. Ela cria expectativas irreais e, pior, afasta quem poderia contribuir de verdade.
Ser voluntário não é ser santo, guru, mártir ou influencer da solidariedade.
Não é colecionar certificados, nem posar para fotos abraçando crianças.
Não é preencher um vazio existencial com boas ações de fim de semana.
E definitivamente não é brincar de ajudar — porque, do outro lado, ninguém está brincando.
Voluntariado é trabalho.
Trabalho não remunerado, sim, mas ainda assim trabalho.
E trabalho exige compromisso, preparo e, acima de tudo, respeito.
Respeito por quem recebe a ajuda — que não é figurante da sua boa intenção.
Respeito pela organização — que precisa de constância, não de aparições esporádicas.
Respeito por você mesmo — para não se meter em algo para o qual não tem tempo, perfil ou preparo emocional.
O que, então, é ser voluntário?
É assumir que você não vai salvar o mundo, mas pode melhorar um pedaço dele.
É entender que impacto não nasce da euforia, mas da continuidade.
É saber que, às vezes, o que você acha que o outro precisa não é o que ele realmente precisa — e ter humildade para ouvir antes de agir.
Ser voluntário é, no fundo, um exercício de humanidade adulta: aquela que não se deslumbra com a própria generosidade.
E como escolher uma atividade voluntária sem cair em armadilhas?
Aqui vai a parte que ninguém gosta de admitir, mas precisa ser dita:
Pesquise antes de se jogar.
Nem toda organização é séria, e nem toda causa combina com você. Afinidade não é detalhe; é combustível.
Seja honesto sobre seu tempo.
Voluntariado não é “quando der”. Se você não pode assumir compromisso, tudo bem — só não prometa.
Entenda seus limites emocionais.
Algumas áreas são duras. Não é vergonha nenhuma reconhecer que você não está pronto.
Pergunte, questione, observe.
Quem está lá dentro sabe o que funciona e o que não funciona. Ouvir evita frustrações.
Procure impacto real, não glamour social.
Às vezes, a ação mais transformadora é a menos instagramável.
No fim, voluntariado não é sobre você — mas também não funciona sem você. É uma dança fina entre intenção e responsabilidade. Quem entra achando que vai mudar o mundo sai decepcionado. Quem entra disposto a aprender, esse sim, acaba mudando alguma coisa.
Roberto Ravagnani é palestrante, jornalista (MTB 0084753/SP), radialista (DRT 22.201), Consultor especialista em voluntariado, ESG e responsabilidade social empresarial. Voluntário palhaço hospitalar, Conselheiro Diretor da Rede Filantropia, CEO da empresa de consultoria R. R. Desenvolvimento e Transformação Humana LTDA e do VOL, porta voz pela ONU, Associado da VRS Consult da Guatemala, prof. de Voluntariado da PADLA University- México e Único Brasileiro Consultor acreditado internacionalmente por Empresability . @roberto.ravagnani
