411 – Voluntariado não é “mão de obra grátis”
Existe uma frase que muita gente pensa, mas não tem coragem de dizer em voz alta: “Que bom ter voluntário, assim a gente economiza com pessoal”.
Se essa é a primeira ideia que vem à cabeça quando se fala de voluntariado, temos um problema – e não é pequeno.
O voluntariado cresceu, se profissionalizou, ganhou método, formação, indicadores. Mas ainda tem organização e até órgão público tratando voluntário como um tipo de funcionário invisível: aparece, faz, resolve… e não custa nada. Conveniente, não?
Quando o Estado começa a depender de voluntário para aquilo que é serviço essencial, o sinal vermelho já deveria estar piscando. Hospital público que só funciona direito porque “tem um grupo de voluntários ajudando todo dia”, escola que chama voluntário para cobrir falta permanente de profissionais, serviço social que “sobrevive” graças à boa vontade de quem doa tempo.
Voluntário pode complementar, inovar, humanizar. O que ele não pode é substituir aquilo que é obrigação do poder público.
No Terceiro Setor, a distorção também aparece. Tem organização que adora dizer: “Aqui, todo mundo trabalha por amor”. A frase é bonita, mas às vezes esconde uma realidade dura: rotina diária, tarefas complexas, responsabilidade enorme… e tudo isso encaixado na categoria “voluntariado”. Se tem carga horária fixa, função definida e cobrança como se fosse emprego, talvez esteja na hora de admitir que não é só amor – é falta de profissionalização.
Para piorar, ainda vem o pacote de chantagem emocional: “Você não quer ajudar?”, “O retorno é no coração”, “Mas você é voluntário, não pode dizer não”. Claro que o retorno emocional é real. Mas ele não pode ser desculpa para desorganização, improviso eterno e exploração da boa vontade.
E o voluntário, como fica no meio disso tudo?
A melhor defesa é a consciência. Antes de aceitar qualquer convite, vale fazer algumas perguntas simples:
A organização sabe explicar por que precisa de voluntários? Há alguém responsável por coordenar esse trabalho? As atividades e o tempo esperado são claros? Há respeito quando você diz “não posso”? Transparência é sempre um bom sinal; culpa e pressão, nem tanto.
Do lado do Estado, a regra é a mesma: voluntariado precisa ser programa sério, com limites bem definidos. Voluntário não pode virar muleta para falta de política pública, orçamento e gestão.
Importante dizer: o problema não é o voluntariado. Pelo contrário. Voluntariado é uma das formas mais bonitas de exercício da cidadania. O problema é quando boa vontade vira atalho barato para tapar buracos que deveriam ser resolvidos com planejamento e responsabilidade.
A boa notícia é que existem muitas organizações – públicas e privadas – fazendo certo: com respeito, estrutura, formação e reconhecimento. Lugares onde o voluntário é visto como parceiro, e não como “recurso gratuito”.
No fim, a mensagem é simples: escolha bem onde você vai doar seu tempo, faça perguntas, exija clareza. Assim, você protege o seu propósito e fortalece quem leva o voluntariado a sério.
Porque, apesar dos abusos e distorções, uma coisa continua verdadeira: os voluntários são – e sempre serão – muito bem-vindos.
Roberto Ravagnani é palestrante, jornalista (MTB 0084753/SP), radialista (DRT 22.201), Consultor especialista em voluntariado, ESG e responsabilidade social empresarial. Voluntário palhaço hospitalar, Conselheiro Diretor da Rede Filantropia, CEO da empresa de consultoria R. R. Desenvolvimento e Transformação Humana LTDA e do VOL, porta voz pela ONU, Associado da VRS Consult da Guatemala, prof. de Voluntariado da PADLA University- México e Único Brasileiro Consultor acreditado internacionalmente por Empresability . @roberto.ravagnani
