430 – A fé que explora: o custo do amadorismo nas instituições religiosas
Há uma linha tênue, mas perigosamente ignorada, entre a devoção espiritual e a gestão institucional. No Brasil, templos e igrejas de todas as crenças movem montanhas de boa vontade graças ao trabalho voluntário. No entanto, por trás do discurso da caridade e da “obra divina”, esconde-se um amadorismo crônico que beira a irresponsabilidade. Instituições religiosas continuam tratando o voluntariado como uma força de trabalho infinita, gratuita e, pior, desregulada. O resultado dessa cegueira gerencial não é a salvação, mas um rastro de descredito e processos judiciais.
O voluntariado sério precisa ser respeitado. Respeito, aqui, não significa tapinha nas costas ou promessas de galardão no céu. Significa gestão profissional. Exigir cumprimento de horários rígidos, submeter o indivíduo à subordinação direta e delegar funções essenciais de funcionamento sem qualquer amparo legal não é “serviço sagrado”. É, tecnicamente, um vínculo empregatício disfarçado de fé.
Quando a liderança religiosa se recusa a assinar um simples termo de adesão ao trabalho voluntário — conforme exige a Lei nº 9.608/98 —, ela não está apenas economizando burocracia. Ela está cavando a própria cova financeira. O voluntário de hoje, frustrado por exigências abusivas e pela falta de estrutura, é o autor da ação trabalhista de amanhã. O tribunal não julga intenções espirituais; julga fatos. E o veredito costuma ser implacável, gerando passivos trabalhistas milionários que destroem o patrimônio de comunidades inteiras.
O maior crime desse amadorismo, contudo, é moral. Ao confundir exploração com doação, as instituições colocam em xeque a própria legitimidade do terceiro setor. O fiel se afasta, o cidadão desconfia e o verdadeiro espírito de solidariedade morre sufocado pela incompetência administrativa.
Gerenciar com profissionalismo não corrompe a fé; protege-a. Passou da hora de os gestores da fé descerem do altar do orgulho e aprenderem a administrar os seus grupos na terra, antes que a justiça dos homens feche as portas de seus templos.
Uma nota importante: Existem muitas organizações religiosas que tem um gerenciamento de voluntários profissional, o que relato acima é a grande maioria que ainda não se deu conta do passivo trabalhista que pode estar gerando. Minha batalha é pelo profissionalismo e a proteção dos voluntários, mas também das organizações.
Todas as organizações são importantes na composição do terceiro setor e nenhuma pode ou deve ser descartada, salvo aquelas que tem má conduta por interesses escusos, então entendam a busca pelo profissionalismo como forma de proteção juridica
Roberto Ravagnani é palestrante, jornalista (MTB 0084753/SP), radialista (DRT 22.201), Consultor especialista em voluntariado, ESG e responsabilidade social empresarial. Voluntário palhaço hospitalar, Conselheiro Diretor da Rede Filantropia, CEO da empresa de consultoria R. R. Desenvolvimento e Transformação Humana LTDA e do VOL, porta voz pela ONU, Associado da VRS Consult da Guatemala, prof. de Voluntariado da PADLA University- México e Único Brasileiro Consultor acreditado internacionalmente por Empresability . @roberto.ravagnani
