418 – “Voluntário tira emprego de profissional?” por que essa ideia é, quase sempre, uma lenda

Sempre que se fala em voluntariado, surge a pergunta: “Mas isso não tira o lugar de quem poderia estar recebendo salário?”. Num país com tanto desemprego, a dúvida é legítima, mas, quando o voluntariado é bem-organizado e ético, ele não substitui profissionais: complementa o trabalho, amplia o alcance das ações e, muitas vezes, ajuda a criar as condições para que mais pessoas sejam contratadas.

Há funções que nunca deveriam ser assumidas apenas por voluntários, como atendimento médico, acompanhamento psicológico, serviço social, contabilidade, gestão financeira ou condução de abrigos. Essas atividades exigem formação, registro, responsabilidade técnica e presença contínua. A própria lei brasileira define o voluntariado como atividade não remunerada e sem vínculo trabalhista; quando alguém é chamado de “voluntário”, mas cumpre jornada e tarefas de empregado, não há voluntariado, há fraude.

Na prática da maioria das Organizações da Sociedade Civil (OSCs), o voluntário entra para fazer o que a equipe contratada não conseguiria fazer sozinha: mutirões de limpeza, campanhas de arrecadação, reforço escolar, visitas a idosos, mentoria de jovens, manutenção de espaços, apoio em eventos e ações pontuais. São atividades importantes, mas que, isoladamente, não justificariam um cargo fixo. Além disso, muitas vezes o voluntariado estruturado fortalece a organização, melhora a gestão e a torna mais atraente para financiadores; com mais recursos, cresce a demanda por profissionais como coordenadores, educadores, assistentes sociais e comunicadores. Ou seja, o voluntário deixa de ser “ameaça” e passa a ser um aliado na criação de vagas.

Outro aspecto ignorado é o perfil de boa parte dos voluntários. São pessoas que não estariam disponíveis para trabalhar ali em tempo integral: já têm emprego, estudam, moram longe ou só podem doar algumas horas por mês. Um advogado que atende uma ONG duas horas por semana, um profissional de tecnologia que configura um sistema, uma publicitária que revisa uma campanha ou um professor que dá uma oficina pontual oferecem contribuições que a organização dificilmente conseguiria pagar. Quando há formação adequada e coordenação técnica, esses voluntários ainda ajudam a elevar a qualidade dos serviços, como no caso de monitores em atividades culturais ou esportivas, que atuam sob supervisão de educadores profissionais, permitindo atender mais pessoas sem substituir o trabalho especializado.

Os problemas aparecem quando falta ética e gestão: se uma OSC passa a usar voluntários para ocupar, de forma contínua, funções que exigem responsabilidade técnica e deveriam ser de um cargo remunerado, há distorção. A saída não é demonizar o voluntariado, mas estabelecer regras claras: definir o que é sempre profissional, onde cabe apoio voluntário, quais os limites de atuação e qual a formação necessária. Também é preciso olhar para o contexto: em muitos territórios, sem voluntariado não existiria atendimento algum — não falaríamos de empregos que deixaram de existir, mas de serviços que nunca chegariam a acontecer. Nessas situações, o voluntariado não concorre com o trabalho remunerado; ele concorre com o abandono.

Por fim, o voluntariado também forma cidadãos mais engajados, informados e atentos às desigualdades. Quem se envolve em ações voluntárias tende a apoiar mais políticas públicas, cobrar mais dos governos, consumir de forma mais consciente e doar recursos, movimentando uma pequena economia em torno das causas sociais e gerando renda direta e indireta. Dizer que “voluntário tira emprego” é uma simplificação que ignora nuances: isso pode acontecer quando há má-fé ou irresponsabilidade, mas, como regra, um programa de voluntariado coordenado com profissionalismo, com orientação adequada e clareza de papéis, não ocupa o lugar de ninguém — ocupa o vazio onde o Estado e o mercado ainda não chegam. Em vez de rivalizar com o trabalho remunerado, anda ao lado dele e frequentemente abre portas para mais trabalho digno. A pergunta, então, deixa de ser “quem está perdendo o emprego?” e passa a ser “quem está ganhando cuidado, oportunidades e direitos que antes não tinha?”.

Roberto Ravagnani é palestrante, jornalista (MTB 0084753/SP), radialista (DRT 22.201), Consultor especialista em voluntariado, ESG e responsabilidade social empresarial. Voluntário palhaço hospitalar, Conselheiro Diretor da Rede Filantropia, CEO da empresa de consultoria R. R. Desenvolvimento e Transformação Humana LTDA e do VOL, porta voz pela ONU, Associado da VRS Consult da Guatemala, prof. de Voluntariado da PADLA University- México e Único Brasileiro Consultor acreditado internacionalmente por Empresability . @roberto.ravagnani