438 – A copa do mundo feminina e o trabalho voluntário: solidariedade ou exploração de mão de obra?
O voluntariado sempre foi visto como um dos pilares mais nobres da sociedade civil, um ato de entrega e solidariedade voltado para causas sociais, comunitárias e humanitárias. No entanto, a proximidade da Copa do Mundo de Futebol Feminino acende um debate ético incômodo: a convocação em massa de milhares de voluntários para trabalhar em um dos granes espetáculos esportivos do planeta. Embora a FIFA seja registrada juridicamente como uma organização sem fins lucrativos, a realidade prática de seus megaeventos passa bem longe de qualquer caráter puramente social, transformando o uso de mão de obra gratuita em uma contradição no mínimo imoral.
Uma Copa do Mundo é uma engrenagem financeira bilionária. O evento arrecada quantias astronômicas por meio de patrocínios de marcas globais, direitos de transmissão televisiva e ingressos vendidos a preços bastante elevados. Trata-se de um produto corporativo de altíssima lucratividade, desenhado para gerar receitas brutas que alimentam a indústria do futebol. Ao contrário de uma ONG que atua na linha de frente de crises humanitárias, o comitê organizador e as entidades parceiras operam sob uma lógica de mercado estrita. Exigir que cidadãos doem seu tempo, energia e qualificação para garantir o funcionamento logístico de um negócio tão rentável desvirtua o verdadeiro propósito do voluntariado.
A incoerência se torna ainda mais evidente quando se analisa o impacto real do torneio. Não há uma ação social estruturada ou uma frente de transformação comunitária direta que justifique o apelo ao sacrifício individual do voluntário em nome de um “bem maior”. O voluntário de um megaevento frequentemente custeia seu próprio deslocamento e, muitas vezes, sua hospedagem, recebendo em troca apenas uniforme e alimentação básica, enquanto assiste a uma cadeia de fornecedores, executivos e atletas movendo milhões de dólares.
Ainda que a prática não seja ilegal e encontre respaldo em legislações sobre o terceiro setor, a legalidade não anula o questionamento ético. Chamar de “voluntariado” o que, na verdade, substitui postos de trabalho legítimos e remunerados dentro de um evento comercial é uma conveniência corporativa para reduzir custos operacionais. Se o espetáculo gera lucros em todas as suas frentes, a remuneração justa de quem o constrói no dia a dia deveria ser a regra, e não a exceção. É preciso repensar o limite entre o engajamento esportivo e a pura exploração da boa-vontade dos apaixonados pelo futebol.
Roberto Ravagnani é palestrante, jornalista (MTB 0084753/SP), radialista (DRT 22.201), Consultor especialista em voluntariado, ESG e responsabilidade social empresarial. Voluntário palhaço hospitalar, Conselheiro Diretor da Rede Filantropia, CEO da empresa de consultoria R. R. Desenvolvimento e Transformação Humana LTDA e do VOL, porta voz pela ONU, Associado da VRS Consult da Guatemala, prof. de Voluntariado da PADLA University- México e Único Brasileiro Consultor acreditado internacionalmente por Empresability . @roberto.ravagnani
